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Foi assim que o ateliê, que sempre esteve mantido dentro
de casa, começava a ganhar ares mais "profissionais". Mais
uma vez, o traço sairia do papel. Agora para ganhar novas
bases. Dedicou-se à escultura e a um novo trabalho voltado
para o objeto. "Eu me descobri trabalhando em um espaço
bem maior que a tela. No retorno à arte, fui parar em painéis,
na parede. Descobri o trabalho com a decoração", comenta
como a juntar os riscos que já fez aqui e acolá. Nesta época,
montou o ateliê com a filha Cláudia Campioni, que já trabalhava
com decoração e também com moda. Uniram-se como em linha
única. "Conseguíamos botar a mão em um mesmo trabalho",
relembra. O sistema era simples. Cada uma começava por um
canto do projeto e se encontravam no meio. Perfeito como
se fosse possível burlar as leis da geometria e fazer dois
mundos (ou duas linhas) paralelas encontrando-se em um ponto
comum. Congruência. No começo, a moda ainda lhe puxava para
um dedo de prosa. Por entender bem do riscado. Mas, Áurea
continuava a fazer risca. Fazia resistência. "Descobri que
podia deixar a moda de vez e que poderia viver com algo
que realmente gosto. Mesmo que casual, tornei-me profissional
da arte", justifica a saída pela tangente como a confirmar
que seu risco estava voltado novamente para a arte. E só
para ela. Como alguém a lhe dizer: se tem coragem, risque!
Ao voltar à mesa do ateliê, confirmou a descoberta de que
era uma desenhista. "Meu traço sempre chegou primeiro em
qualquer trabalho. Naturalmente, ele é mais forte", convence-se.
Apesar de leve e contemporâneo, seu traço tem resquícios
de um desenho tradicional. "Apesar de trabalhar com humor,
uma quase caricatura, descobri que tinha aprendido realmente
a desenhar", afirma sobre a observação do próprio traçado.
Mesmo afirmando que "aprendeu a desenhar", Áurea sempre
respeitou o que dava errado, insistindo como certo. Destra,
treinava a mão esquerda. Mesmo que somente para obter garranchos.
Rabiscos puros que lhe renderam um retorno positivo. "Como
nada surgia como imposição, o resultado voltou-se ao meu
favor", comemora. Tanto que esta mistura em seu traço transformou-se
em sua marca registrada. E, mesmo quando tenta fugir do
figurativo, não é que aparece uma figurinha (meio que intrometida)
nesta história de abstrato. Apesar de morrer de medo de
ficar a serviço de séries, suas obras seguem temas que,
vez ou outra, acabam se encontrando em um novo trabalho.
Não planeja, aparecem. Talvez por sempre estar vasculhando
seu arquivo de memórias. Reminiscências. O que já esteve
no papel pode virar tela. O que era pequeno pode ganhar
grandes dimensões. Tudo se transforma. Não existe receita
certa. O importante é manter o ingrediente que se encontra
em todas elas: o humor. Bom exemplo são os seus últimos
trabalhos que retratam homens de terno e mulheres com "cara
de shopping center". Tudo bem humorado,. E claro, com uma
boa pitada de informação de moda. "Meus personagens usam
Giorgio Armani", conta aos risos. Saudades do passado? "Sim.
Meu trabalho é resultado do que acreditava, da atitude,
da minha percepção do mundo, enfim do que também era moda
para mim", teoriza. O futuro, porém, pode levá-la ao encontro
de pessoas que vivem em mundo bem distante e que, com certeza,
não usam (e nem sabem que é) Giorgio Armani. Como o poeta
cearense Patativa do Assaré e todo o seu mundo sertanejo.
Entre figuras comuns e outras com nome e sobrenome, Áurea
já pensou em se incluir nesta lista. "Sabia que eu pensei
nisto semana passada? Quero me colocar na tela assim como
me vejo: divertida, sempre a rir de mim mesma. Ah! Só que
com um nariz maior",comenta voltando às gargalhadas, estas
tão comuns no meio de qualquer prosa que se tenha com ela.
Alguns convites para a exposição destas e outras obras estão
sendo estudadas com carinho. Mas, se você quer conhecer
alguns de seus trabalhos, como o "Senhor vai à Festa" (nome
da tela que retrata pessoas brindando) ou a "Esnobe" (tela
com uma mulher bem metida com "cara de shopping center"),
estão como pano de fundo dos dois programas apresentados
por Amaury Júnior, na Rede Bandeirantes. Mas, não se engane
que a telinha é suficiente para esta "pequena" grande artista.
Suas telas estão ganhando dimensões cada vez maiores. Assim
como no começo de seu trabalho. Telas grandes, com seus
personagens quase em tamanho natural. Em lugares também
cada vez maiores, quase cenários. Recentemente, fez um trabalho
para um espaço da Casa Cor e um painel de 16 metros para
uma das unidades do SESC, em São Paulo. Eu não disse que
seus 1 metro e 59 centímetros viram, muitas vezes, mais
de 15 metros? Se Áurea ainda não se retratou em nenhuma
tela. Nem em uma de 1,59 m e nem em uma de 15 metros. Seus
trabalhos também vivem à solta pelo mundo. Sem escolher
local definido ou proposta presa em moldura fixa. Como a
insistir em não querer se eternizar. "Talvez, um dia, alguém
queira organizar, analisar e avaliar minha obra. Só sei
que eu não quero fazer isso. Aliás, não me lembro nunca
de ter traçado algo. A única coisa que planejo é a de ficar
velhinha ainda pintando", diz como querendo se fazer entender
de que o que mais deseja é continuar a brincar com a tela
em branco - sua verdadeira arte. |